sexta-feira, 28 de junho de 2013

Hospedagem

E de repente ela chegou. Começou com batidas leves na porta, mas suficientes para que sua presença fosse notada. Chegou com cheiros suaves, mas suficientes para fazê-la familiar. Chegou intensa mas calma, cheia de sorrisos frios e distantes, entretanto entorpecentes... Chegou sozinha, mas ao mesmo tempo acompanhada de outra senhorita já conhecida e juntas fizeram da minha porta, um instrumento de percussão. As batidas eram tão fortes, que fora impossível ignora-las. Ousadas e cheia de lembranças, a saudade e a dor cansaram de manter a boa educação e foram entrando... Adentraram todos os cômodos, sentaram, observaram, e preencheram o vazio que vez ou outra encontravam. Em contrapartida, o que estava possivelmente preenchido, elas tiravam facilmente e preenchiam com a verdade. Ou com uma jarra de lágrimas. Finalmente, cheias de  audácia, me acharam. Olharam-me, como quem olha uma presa. Olharam-me como quem olha uma animal doente. Olharam-me como se me conhecessem... E simplesmente fizeram morada ali, como se fossem de casa. E assim o eram... Companhias constantes e seus maiores prazeres eram conversar sobre como eu tento me esconder ou me enganar. Como tento fugir da presença delas, me preenchendo com coisa supérfluas, que nunca vão me fazer esquecê-la. Nem seus toques suaves. Nem sua presença notável. Nem seu perfume marcante... Nem sua familiaridade, ainda mais: minha mania de fazê-la minha... sem tê-la.

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